Jair Bolsonaro (sem partido) passou a receber políticos do chamado “centrão” e a negociar cargos federais

Nos últimos dias, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) passou a receber políticos do chamado “centrão” e a negociar cargos federais com os chefes destas legendas. Depois de uma série de derrotas do governo no Congresso, o Planalto quer reconstruir sua base de apoio na Câmara e no Senado — e também mira a disputa para o comando das duas casas do Legislativo, no começo de 2021.

O movimento acontece ao mesmo tempo em que Bolsonaro e seus apoiadores radicalizam o discurso e aprofundam os ataques contra adversários políticos, como o atual presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Durante a quarta-feira (22), a hashtag #MaiaTraidorNacional foi mencionada ao menos 173 mil vezes no Twitter, e figurou na lista dos assuntos mais comentados do dia na rede social. No último fim de semana, Bolsonaro criticou a “velha política” ao discursar para apoiadores em frente ao Quartel General do Exército, em Brasília.

Segundo congressistas e pessoas que trabalham na articulação política do governo, o principal negociador pelo lado do governo nas tratativas com o “centrão” é o ministro da Secretaria de Governo, o general da reserva Luiz Eduardo Ramos.

Na luta para ganhar musculatura no Congresso, o Planalto não conta só com a simpatia do general Ramos e de Bolsonaro. Segundo os jornais brasileiros, o governo está negociando o comando de órgãos federais com legendas do centrão, como PP, PL e Republicanos.

Estariam na mesa o controle do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS); do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE); da Fundação Nacional de Saúde (Funasa); do Banco do Nordeste e do Departamento Nacional de Infraestrutura em Transportes (Dnit); além de cargos no segundo escalão do Ministério da Saúde, na gestão do oncologista Nelson Teich.

Na noite de domingo (19), Bolsonaro também fez um aceno ao cacique do PTB, o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB). O presidente fez uma transmissão em suas redes sociais na qual aparecia, no Palácio da Alvorada, assistindo a um vídeo ao vivo de Jefferson. No trecho divulgado, o petebista acusava Rodrigo Maia de tramar um “golpe parlamentarista” contra o presidente da República.

O chefe de um dos partidos envolvidos nas negociações diz que não há qualquer contradição nas ações de Bolsonaro. O presidente está “cortando a intermediação” feita por Rodrigo Maia entre o governo e os deputados do centrão.

“Em relação aos demais partidos do ‘centrão’, o que está havendo é que o Rodrigo Maia está deixando de ser um intermediário. Ele era intermediário. Agora não é mais. Aí acho que a relação (entre o governo e os deputados) tende a melhorar”, diz o líder partidário.

No jargão da política, o termo “centrão” é uma designação pejorativa usada para referir-se a partidos conservadores sem orientação ideológica clara, que costumam buscar proximidade com o Executivo em troca de cargos e outras benesses. Partidos como PP, PL, PSD, PTB, Republicanos, PSC, Pros, Solidariedade, PEN, PTN e PHS, entre outros, costumam ser enumerados entre os integrantes do grupo, embora os dirigentes dessas legendas geralmente rejeitem a alcunha.

Na quarta-feira (22), Bolsonaro recebeu o presidente nacional do MDB, o deputado federal Baleia Rossi (SP), e o líder do partido no Senado, Eduardo Braga (AM). Nesta quinta (23), Bolsonaro deverá se encontrar com o presidente nacional do Democratas, o prefeito de Salvador (BA), ACM Neto.

No caso de MDB e DEM, políticos ligados às duas legendas negam que cargos estejam sendo negociados.

Na semana passada, Bolsonaro já havia recebido representantes de outros partidos de centro-direita. Na sexta-feira (17), conversou com líderes do Republicanos (antigo PRB), o deputado Jhonatan de Jesus (RR); do PL (antigo PR), o deputado Wellington Roberto (PB); e do PP, deputado Arthur Lira (AL) — o alagoano voltou a marcar presença na agenda presidencial na segunda-feira (20). Outra presença constante na agenda de Bolsonaro é o deputado Fábio Faria (PSD-RN); ele é próximo dos filhos do presidente.

Derrotas em série

A nova tentativa do governo de compor uma base no Congresso vem depois de uma série de derrotas. E, o que é pior, do ponto de vista palaciano, é que várias delas tiveram impacto no orçamentário.

A “luz amarela” acendeu-se no Palácio do Planalto depois que os deputados impuseram ao governo uma derrota na votação do plano de ajuda de R$ 90 bilhões aos Estados e municípios, na última segunda (13). Na ocasião, a posição governista foi preterida por 431 votos a 70.

“O Plano Mansueto foi um alerta muito grande. O governo entendeu que, pós-pandemia, a situação vai ser muito difícil. Durante a pandemia já está difícil. E não pode deixar que o (aumento do) gasto público inviabilize o governo e o Brasil pelos próximos anos”, diz um assessor palaciano cujo trabalho é acompanhar as votações no Congresso.

A disputa pela presidência da Câmara

A aproximação de Bolsonaro com os partidos do Centrão também mira em outro objetivo, este mais de longo prazo: a disputa pelo comando das duas casas do Legislativo — principalmente da Câmara dos Deputados —, no começo do ano que vem.

Pelas regras atuais, Rodrigo Maia (DEM-RJ) não poderia concorrer a mais um mandato de dois anos à frente da Câmara, que ele comanda desde 2016. Embora o fluminense não costume tratar deste assunto, políticos do entorno de Bolsonaro acreditam que ele tentará estender seu mandato, ou colocar um aliado no posto — desfecho que os governistas não desejam.

Entre congressistas, circulam como possíveis sucessores de Maia os nomes dos deputados Arthur Lira (PP-AL) e Marcos Pereira (Republicanos-SP). O primeiro contaria com o apoio informal do Palácio do Planalto, enquanto o segundo é o atual vice-presidente da Casa.

Informação BBC News Brasil

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here