O rabo de um gato que cresce junto com seu gato não tem o mesmo valor de notícia que o rabo de um gato cortado por jovens delinquentes
Todo Estado moderno que anseia se chamar democrático, necessariamente precisa se escorar na mídia em termos diretamente proporcionais ao aumento de poder que este mesmo Estado alcança perante seus cidadãos e, em paralelo, maior devem ser os meios para o exercício direto pela própria população de sua liberdade de expressão como forma de garantia direta contra eventuais desvios da própria mídia. Se não existe uma real democracia sem a mídia, tampouco pode ela existir sem o exercício direto da liberdade de expressão pelos interessados nesse sistema.
Colocando as coisas nestes termos, creio ser de todo pertinente, estando naquele terceiro grupo (interessados no sistema democrático) propor uma reflexão sobre o que talvez seja o cerne do que deveria ser o produto do jornalismo: a notícia. E, nesta, no que se tem como valor-notícia e seus atributos: atualidade, proximidade, impacto, conflito, prominência, inusualidade, interesse, magnitude, novidade etc. E por esta reflexão ouso denunciar que, se estamos onde estamos, estamos porque lá atrás, um dos vértices do que deveria ser o equilátero (Estado, mídia e povo) falhou e, quando dizemos falhou, o fazemos ainda com o romantismo clássico e pueril de quem prodigamente distribui o benefício da dúvida, quando o sentimento mais sincero é que não foi falha, mas sim oportuna e dolosa conveniência.
A vida é um emaranhado de fatos sucessivos ou não, interpostos ou não, concatenados ou não: o rabo de um gato, a queda de uma árvore são fatos, são tão fatos quanto a reprodução de ratos ou a promiscuidade de autoridades públicas em uma engenharia financeira criativa, porém nem todos possuem o mesmo valor quando comparados entre si, ou quando comparados com similares de sua mesma categoria. O rabo de um gato que cresce junto com seu gato não tem o mesmo valor de notícia que o rabo de um gato cortado por jovens delinquentes – a queda de uma arvore no meio da mata em uma tempestade equatorial, não ressoa tanto quanto a derrubada de milhares de hectares em meio a uma área de preservação ambiental – o ciclo de reprodução de um rato de botica na soleira da casa de uma senhora aposentada sequer se compara a infestação de ratos nos depósitos de um celeiro de uma distribuidora de arroz…
Por uns bons anos na história bem recente do Brasil, a mídia empurrou diariamente ao povo destaques sobre: cartão de vacina, passeio de jet-ski, baleia, travessia de ponte sem capacete, traquejo social não refinado, um emaranhado sem fim de fatos (por vezes factoides) que, analisados a luz dos atributos do valor notícia, em quase nada, gabaritavam positivamente de modo a merecer sequer uma linha que fosse nas paragens sobre política e Estado, assuntos que apesar de eventual proximidade emocional, por envolver pessoas de relevância política, não tinham em si polêmica, não tinham em si potencial de tocar a vida das pessoas, não versavam sobre algo de qualquer elevada magnitude, não eram algo fora do usual e nem geravam grandes consequências e, a despeito de não pontuar em nada em tais atributos, não só foram aceitos pelas direções jornalísticas, como, ainda, ecoaram por todo aquele ecossistema de modo coordenado, chegando ao cúmulo de, quando nada mais havia a ser dito, vinham a ser requentados, ferindo assim os atributos de atualidade e novidade.
Esse fenômeno teve por consequência (óbvia) a perda da relevância em si da mídia como um dos vértices do equilátero, aquele que informa o povo, os interessados, daquilo que haveria de ser relevante quanto a fiscalização do bom andamento do Estado como um todo, já não mais servia como mídia ao ser transformada em instrumento de marketing, propaganda. Com a perda da relevância da mídia, que estava dando destaque ao rabo do gato que não fora cortado por delinquentes, os ratos passaram a proliferar e engordar enquanto corroíam não apenas aos cofres “públicos” como, ainda e sobretudo, a colcha constitucional de garantias fundamentais com reconhecimento público, verbalizado, explícito de uma ministra do STF que afirmou que sim: tudo aquilo era uma medida de exceção!
Em paralelo a tudo isso, cresceu o poderio corrompido do Estado, encolheu a mídia, a população (interessada) se viu diante dela mesma ocupar parte do espaço que a mídia desperdiçou, sendo este o fenômeno das redes sociais. Porém, estando o poder Estatal em um processo inflamatório, não podendo se dar por satisfeito com a auto mutilação feita pela mídia, como um glutão, voltou-se com olhos arregalados, boca salivante, língua nervosa e de talheres em punhos para a população nas redes sociais, etiquetando-as de “fake News”, golpistas e outros termos desprovidos de conteúdo e significado, mas que calham a gerar apenas o efeito metonímico, ou seja, produção de um sentimento reflexo sem nexo com qualquer conteúdo semântico.
E hoje, fatos que efetivamente gabaritam em todos os atributos de um valor-notícia, quando caem no colo da mídia e está tenta recolher dos esgotos os restos de sua credibilidade que por anos foi desperdiçada, encontram não mais ratos de boticas nas soleiras da vovó, mas sim conglomerados estruturados de ratazanas que se banquetearam por anos com dinheiro sujo, relações promíscuas, “engenharias” criativas, triangulações encobertas e escamoteadas.
Gostaria muito de poder dizer que o problema seria esse: a mídia tem que enfrentar este Estado no estado das coisas que aí observamos, todavia, não existe “o” problema, não existe apenas um único problema, existe sim uma “situação” como toda problemática e a solução para ela passa por algo que muitos sentem aversão em verbalizar por questões de sequestro ideológico e esvaziamento de conteúdo da palavra: honestidade.
Honestidade em refletir sobre ser ou não importante haver uma real relação equilátera entre Estado, mídia e população, pois, sem o Estado estamos em anarquia – sem população estamos em tirania – sem a mídia estamos no fascismo. Honestidade em reconhecer que abusaram e desperdiçaram de sua posição por razões não jornalísticas. Honestidade em reconhecer que alimentaram as ratazanas que hoje aí estão, as mesmas ratazanas que se alimentaram do art. 5 da Constituição Federal e que vinha devorando as pernas, mãos e fígado da população e que hoje estão voltando sua atenção para devorar também a mídia. Honestidade para poder enfrentar junto com a população as ratazanas que estão no outro vértice. Honestidade em querer reparar os “equívocos” de uma paixão ideológica. Honestidade em aceitar que, se a população deseja um caminho, que não se deve recorrer a ratos e abusos, pois em uma democracia, os caminhos são escolhidos pela população.
A quem possa interessar ou em quem a carapuça servir: é isso, apenas isso, do contrário voltem a falar da queda de uma goiaba madura no quintal de Dona Filomena; voltem a descaradamente querer temperar fatos com sabor artificial e barato de polêmica, enquanto a população sozinha e enquanto pode verbaliza e denuncia com maior ou menor, melhor ou pior técnica, aquilo que realmente tem valor-notícia.




































