“A forma como a geração atual trata os pais, tão distinta de outrora, revela o quanto as palavras expressam o respeito e o valor simbólico que lhes atribuímos.”
A linguagem jamais é neutra. Ela carrega cultura, valores e traduz a maneira como concebemos o mundo e nossas relações. Durante gerações, era habitual que filhos se dirigissem aos pais como “senhor” e “senhora”, que lhes beijassem as mãos e solicitassem a bênção. Não se tratava de mera formalidade. Havia ali um gesto carregado de significado, reverência e gratidão.
Os tempos mudaram. A sociedade tornou-se mais horizontal, os vínculos mais próximos, o diálogo mais aberto. O “tu”, o “você” e outras expressões informais passaram a ocupar o cotidiano familiar. A mudança, por si, não configura necessariamente perda de respeito. Contudo, convida à reflexão; o que essa mudança na linguagem revela sobre o lugar que os pais ocupam, hoje, na estrutura simbólica da família?
O modo de tratar é um símbolo, e símbolos sustentam culturas. Eles educam, moldam comportamentos e constroem referências duradouras. Quando a linguagem empobrece em consideração, corre-se o risco de que as atitudes sigam o mesmo caminho, ainda que de modo imperceptível.
Não se trata de defender distanciamento ou rigidez, mas de preservar a consciência de que pai e mãe não são apenas presenças. São alicerces da formação moral, emocional e identitária. São raízes que sustentam a árvore inteira.
Uma sociedade que relativiza em demasia a autoridade no espaço doméstico terá reflexos nas demais instituições sociais, fragilizando valores como gratidão, empatia e honra. O respeito não precisa ser frio, nem excessivamente formal; mas precisa ser inequívoco, visível nas palavras e coerente nos gestos.
Talvez não seja questão de restaurar, de modo obrigatório, o “senhor” e a “senhora”, mas de assegurar que qualquer forma de tratamento preserve a dignidade do vínculo. Que a intimidade não elimine a reverência. Que a proximidade não dissolva o reconhecimento do sacrifício, da experiência e do cuidado.
No fundo, a discussão ultrapassa a semântica. É uma questão civilizatória. A maneira como nos dirigimos aos nossos pais revela o tipo de sociedade que estamos edificando e os valores que escolhemos perpetuar. Resta, então a pergunta essencial: minhas palavras honram aqueles que me deram a vida, direção e exemplo?
Porque, ao final, a forma como falamos com nossos pais não revela apenas quem eles são; revela, sobretudo, quem nós decidimos ser.




































